Liddy

Bela profissão ensinar música a crianças e jovens, para que logo aprendam o potencial maravilhoso daquilo que consola sofrimentos, promove júbilo e viabiliza o sagrado. A magia da música até ressuscita, por minutos, os que têm Alzheimer. Liddy, mais do que ensinar a técnica, procurava despertar o que havia de música em cada aluno.

Francisco Mignone e Liddy, dentre tantas atuações, levaram a música dos conservatórios às favelas, quando uma mulher ajoelhou-se a eles em pleno agradecimento.

No dia do acidente, meu pai chega cedo em casa, leva Zitú ao quarto e ela sai chorando muito. Algo de extrema gravidade acontecera; pensei logo que seria com minha avó, era o que mais eu temia. Quando uma pessoa amada demais morre de repente, o que fazer com tanto afeto que convergia para ela? Hoje, diante de desastres aéreos, imagino a infinidade da dor dos parentes dos mortos, sei bem como a perda repentina de pessoas muito queridas pode criar abismos que arruínam vidas. A sua morte trouxe grandes mudanças para mim. Liddy articulava toda a família. Não só a música não saía mais pelas janelas da minha casa, como muitas portas se fecharam nos meus caminhos.

Lembranças dos oito anos que convivi com minha avó há muitas: ela me levou a uma aula que deu na APAE, onde a imagem das crianças paralíticas esforçando-se em movimentos naquele chão refletindo luz entrou fundo em mim. Gritei desesperado quando ela veio a São Paulo e não ficou comigo naquela noite da entrega do prêmio Saci ao Mignone. Fomos, só nós dois, ao lançamento de seu livro em Santos, chovia tanto naquela tarde. E guardo como preciosidade as cartas que ela me enviou, cheias de desenhos rabiscados com tanto afeto.

Com suas roupas singulares, sempre plena de presença e generosidade, Liddy encantava quem a conhecia. Dentre os motivos que a levaram a ser admirada, estava a coragem que teve ao separar-se de seu marido no início dos anos 1930 e ir viver com Mignone no Rio, naquela época isso era bastante incomum.

A sua caixinha de pó de arroz de pequenos quadrados de madrepérola me hipnotizava, era dos seus únicos objetos de valor. Liddy usava broches e pequenos enfeites simples, nenhuma joia de status; não precisava, o que mais além do brilho da sua aura dourada?

Roberto Cenni (julho 2026)

desenhos de Liddy para Roberto

Francisco Mignone

(São Paulo, 3 de setembro de 1897 – Rio de Janeiro, 19 de fevereiro de 1986)

Francisco Mignone era filho do flautista Alferio Mignone, que havia imigrado da Itália para o Brasil no ano anterior ao seu nascimento. Mignone recebeu formação musical desde a infância, estudando flauta com o pai e também piano; aos 13 anos já se apresentava como flautista e pianista em pequenas orquestras.

Em 1913 foi estudar no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e lá conheceu o escritor e musicólogo Mário de Andrade. Em 1917 formou-se em piano, flauta e composição, tendo sido aluno de Luigi Chiaffarelli e de Agostino Cantù. Durante esse período, participou de serenatas e compôs diversas peças populares, ligadas ao universo rural e sertanejo, algumas das quais sob o pseudônimo de Chico Bororó. Também era presença frequente nas rodas de choro dos bairros do Brás, Bixiga e Barra Funda.

Em 1920 foi estudar em Milão e lá escreveu sua primeira ópera, “O Contratador de Diamantes” (1924). Ao retornar, aproximou-se de Mário de Andrade e, com sua colaboração, compôs algumas de suas principais obras. Em 1932 mudou- se para o Rio de Janeiro com Liddy Chiaffarelli, onde se tornou professor de regência no Instituto Nacional de Música, atual Escola de Música da UFRJ.

Entre 1936 e 1956 compôs 14 trilhas de filmes, para as companhias Cinédia, Vera Cruz, Multifilmes e Corona. Ganhou o prêmio Saci de melhor trilha sonora pelo filme “Sob o céu da Bahia”, em 1957.

Em 1951 assumiu a diretoria do  Theatro Municipal do Rio de Janeiro e depois foi eleito presidente da Academia Brasileira de Música. Esse período corresponde a sua fase nacionalista, com influência do folclore brasileiro, que se estendeu até 1959, sendo que na década de 1960 dedicou-se a peças atonais durante dez anos. Em 1961 foi o regente do primeiro concerto da recém-fundada Orquestra da Rádio MEC, atual Orquestra Sinfônica Nacional, e foi seu primeiro regente titular.

Morou com  Liddy no Rio em frente ao Corte do Cantagalo até Liddy morrer em um acidente aéreo, em 1962. Depois disso, Mignone entrou em uma fase bem mais introspectiva e compôs a 2ª Missa (em fá maior), escrita em 1963 e dedicada “em memória de Liddy Chiaffarelli Mignone”. Na partitura, Mignone anotou: “No céu há uma estrela a mais à minha espera. Para ela, esta música. Rio de Janeiro, 11/7/63.” Esta obra faz parte das sete missas sacras que Mignone compôs na década de 1960, todas com textos litúrgicos em latim.

Posteriormente, em 1964, Mignone casou-se com a concertista, e ex-aluna de Liddy, Maria Josephina Benroussan, com quem conviveu até sua morte, tendo sido pai de Anete Rubin.

Ao retomar a composição tonal, criou outras duas óperas, “O Chalaça” (1976) e “O Sargento de Milícias” (1978). Sua obra é extensa e abrange os mais diversos gêneros, incluindo composições para piano, como as “Lendas Sertanejas” e as “12 Valsas de Esquina”; obras orquestrais como “Festa das Igrejas” e a “Sinfonia Tropical”; balés como “Leilão”, “Quincas Berro D’Água” e “Maracatu do Chico Rei”; bem como obras para violão e oboé, canções e as três óperas.

Durante sua carreira recebeu diversos prêmios e honrarias, como a Ordem do Rio Branco (1972), o Prêmio Golfinho de Ouro do Governo do Estado do Rio de Janeiro (1979) e o Prêmio Shell de Música Brasileira (1982).

Mignone morreu no Rio de Janeiro, aos 88 anos, de câncer no pulmão. Maria Josephina, que fundou o Centro Cultural Francisco Mignone, continuou a executar e interpretar sua música, tendo falecido em julho de 2024, aos 101 anos. Hoje Anete Rubin é a responsável pela divulgação de sua obra. Há duas escolas (São Paulo e Rondônia) e dois CIEPs (Rio de Janeiro) com o nome Francisco Mignone. Foram realizadas cinco teses de doutorado e uma de mestrado sobre a música de Mignone.

12 valsas de esquina, intérprete Shizuka Shimoyama

cantiga de ninar dedicada a Liddy

Lembranças de Mignone

Quando eu nasci, minha avó, Liddy Chiaffarelli, separara-se havia muitos anos de Agostinho Cantú – que inclusive já havia falecido – e estava casada com Francisco Mignone, portanto sempre o tive como meu avô. Chamava-o de Kuko-Peng: do “Kuko” não sei a procedência, mas o “Peng” vinha de soco, pois uma das mais fortes recordações que tenho da infância são as lutas de almofadas que nós dois fazíamos. Com o tempo caiu o “Peng”, mas o “Kuko” ficou por toda a vida. Ele me chamava de Nequinho, e mais tarde Robertinho.

Lembro-me bem do seu espírito brincalhão, que gostava de pregar peças nos outros, como cutucar o ombro da pessoa e depois disfarçar, às vezes assobiando. Uma de suas brincadeiras prediletas era um jogo de ilusão com os dedos que me deixava intrigado, pois os dispunha e movimentava de tal modo que simulava o ato de uma mão arrancar o polegar da outra.

No apartamento da Pompeu Loureiro, no Rio de Janeiro, onde eu estava sempre que podia, ouvíamos os discos dos quais eu gostava muitas e muitas vezes seguidas (ele tinha bastante paciência comigo), ficávamos observando o treinamento dos bombeiros com a escada magirus – que me fascinava –, lutávamos com as almofadas da sala, jogávamos bolinhas de miolo de pão num grande peixe roxo de porcelana, tentando acertá-las na sua boca aberta.

O que poderia me deixar mais feliz?

Imenso era meu prazer de passear com ele de mãos dadas pelas ruas de Copacabana; íamos a uma pracinha com parque infantil e na volta passávamos pela Confeitaria Colombo para comprar cisnes de creme.

Era costume irmos nas férias para Cambuquira, e lá ficávamos hospedados no hotel de um amigo do Kuko; lembro-me do café da manhã na sala toda branca com pão cheio de mel e o sol entrando pelas altas janelas, do parque das águas de gostos estranhos e do lago com barquinhos que o Kuko remava.

Minha mãe achava que tanto ele como minha avó faziam todas as minhas vontades e eu acabava mimado demais. Provavelmente ela tinha razão, muitas vezes eu exagerava na exigência dos meus desejos – era comum eu ficar chorando desesperadamente quando eles saíam sem me levar –, mas isso também acontecia porque eu os adorava.

A lembrança que guardo do Rio é a de uma cidade realmente maravilhosa, com o sol brilhando nas grandes pedras e no mar bem azul, os ônibus e os lotações multicores voando pelas ruas. Enfim, tudo no Rio era gostoso e a cidade parecia sempre cheia de luz e de alegria, certamente pela presença do Kuko e da minha avó.

Quando eu tinha oito anos aconteceu a morte de Liddy em acidente aéreo, o que para mim acabou representando uma perda bem maior do que a sua falta, já imensa. Fiquei muito tempo – creio que mais de 10 anos – afastado do Rio de Janeiro, do avião e do Kuko, por imposição dos problemas psicológicos de minha mãe, que procurava evitar qualquer contato com o passado que lhe fosse doloroso.

Neste período, vi-o apenas uma vez na casa de meu irmão, em Belo Horizonte, e em outra oportunidade na casa do seu irmão Domingos, em São Paulo, sem poder entender direito o que impedia nosso encontro. Com a morte de meu pai e a mudança da minha mãe para Belo Horizonte, voltei a ir ao Rio, agora para acompanhar as audições das obras de Mignone e as homenagens que lhe eram prestadas, tendo sido várias vezes convidado por ele e por sua esposa Maria Josephina para ficar no apartamento da Pompeu Loureiro. Após o Teatro Municipal apresentar suas obras, sempre havia festa para homenageá-lo em algum apartamento de alguém bem rico.

Em 1985 soube que Mignone estava com câncer no pulmão e quase que com certeza não alcançaria os 90 anos. Fui ao Rio para vê-lo e esforcei-me para não ser tomado pelo que estava sentindo, o que acabaria demonstrando a minha imensa tristeza com seu estado de saúde. Nesta data ele quis me devolver um dente de leite meu que permaneceu guardado num pequeno vidro com formol e uma fotografia descorada e preciosa de Cambuquira, na qual eu estava cercado por ibiscos. Esta foi a última vez que o vi.

Para mim, Mignone sempre foi e sempre será o Kuko, um homem que – independente de sua habilidade com a música – possuía acesso direto ao meu sentir e foi o protagonista de alguns dos momentos em que vivi grande plenitude. Muitas vezes me perguntei se ele realmente sabia da importância que teve na minha vida.

Roberto Cenni (década de 1990)

Nota: esta é uma página de memórias e afetos. A biografia de Liddy Chiaffarelli Mignone – com informações, fotografias e vídeos – é parte da família Chiaffarelli