Luigi Chiaffarelli

(Isérnia, Itália, 2 de setembro de 1856 – São Paulo,16 de junho de 1923 )
Nascido em uma família de músicos (avô, pai, tios e irmãos eram musicistas), o pai foi seu primeiro professor, ensinando noções de piano e teoria musical. Devido a sua precocidade na música, regeu bandas e orquestras em Isérnia (cidade histórica perto de Nápoles), mas preferiu dedicar-se com profundidade ao estudo do piano, aperfeiçoando-se com o Prof. Gustavo Tofano, em Bologna, e depois com o Prof. Sigmund Lebert, no Conservatório de Stuttgart, na Alemanha, que se tornou seu grande mestre. Ao optar pelo magistério, desiste da carreira de concertista e vai à Suiça, onde conhece Francisco Paula Machado e sua esposa Sebastiana, que – junto a um grupo de fazendeiros de Rio Claro, no interior paulista – convidam Chiaffarelli para vir ao Brasil ensinar seus filhos, o que era um costume das ricas famílias daquela época.

Vinda ao Brasil

Luigi chega ao país em 13 de junho de 1885 e, além do piano, passa a lecionar italiano, francês e alemão para as filhas de fazendeiros; quando faleceu, tinha fluência em treze idiomas (inclusive russo e polonês, tendo estudado japonês). No interior paulista, algumas cidades desenvolveram-se devido à plantação de café e foram construídos teatros que apresentavam óperas e operetas, segundo os hábitos musicais da corte.

Em Rio Claro, Luigi realizava constantes reuniões no Teatro Fênix e na Sociedade Filarmônica, presidida por ele, que possuía dois pianos de cauda trazidos da Alemanha. Rio Claro tornou-se, assim, o centro da cultura do Oeste Paulista. Luigi mudou-se para São Paulo em 1888, pois a capital oferecia um ambiente muito mais favorável para sua carreira pedagógica e musical, com uma clientela maior interessada em música erudita e instituições culturais em expansão.

A família Chiaffarelli – Luigi com sua mulher, Wilhelmina, de origem alemã, e os filhos Olindo, pediatra, e Elisa (Liddy), cantora, professora de piano e pioneira da iniciação musical no Brasil – foi morar num chalé na Rua Barra Funda, n. 55, onde Luigi começou a dar aulas e a receber alunos.

Rua Padre João Manuel

Chiaffarelli logo organizou vários concertos didáticos (os famosos concertos históricos, no Salão Steinway, que chegaram a sessenta) para formar os ouvintes e possibilitar a exibição de seus alunos, incluindo também trios, quartetos e quintetos compostos por outros instrumentos, buscando ampliar o universo sonoro do público, costumeiramente restrito aos solos de piano.

Em 1899, Camile Saint-Saens veio ao Brasil e acompanhou as apresentações na casa dos Chiaffarelli, tocando com as alunas. Os Saraus Musicais, realizados na residência da Barra Funda, foram iniciados em 1901 e desenvolveram-se até 1915. No período entre 1913 e 1915, Luigi Chiaffarelli recebeu a colaboração do Maestro Agostino Cantù, que havia se casado com Liddy e era seu genro, para organizar os seis programas anuais.

Em 1918, Luigi e Agostino foram morar juntos na rua Padre João Manuel, n.83, (local onde hoje se encontra o Colégio Iavne, de tradição judaica) e, em 1919, inicia-se uma nova série de concertos para um público restrito de alunos e amantes da arte pianística – os Vesperais, realizados nas tardes do terceiro domingo de cada mês.

A qualquer hora do dia ou da noite havia alguém tocando piano na casa, que chegou a receber Harold Bauer, Pablo Casals, Ernest Schelling, Ignacy Jan Paderewski e Vaslav Nijinski, entre muitos outros. Nessa época era comum pianistas tocarem transcrições, adaptações e fantasias sobre obras sinfônicas e trechos de óperas. Chiaffarelli tinha constante preocupação em modificar esse hábito, apresentando aos seus alunos obras dos principais compositores modernos – como Albeniz, Borodini, Debussy, Fauré, Glazounov, Grieg, Mahler, Rachmaninoff, Ravel, Saint-Säens, Smetana, Stopowski, Tchaikowsky – e dezenas de outros musicistas menos conhecidos hoje.

Entre os brasileiros, estavam Carlos Gomes, Leopoldo Miguez, Henrique Oswald, Alberto Nepomuceno, Alexandre Levy, Heitor Villa- Lobos e Brasílio Itiberê da Cunha.

A casa foi projetada pelo escritório Ramos de Azevedo e a planta foi assinada por Giovanni Battista Bianchi (1885-1942). A mansão era formada por duas grandes casas geminadas de dois andares, independentes e idênticas, unidas ao centro por um grande salão de concerto ladeado por varandas que davam para o jardim de jabuticabeiras. O salão podia receber 150 pessoas em cadeiras de madeira e tinha no palco dois pianos de cauda inteira e um órgão no meio. No térreo estavam esse grande salão de música, salas de estar e jantar, biblioteca, sala de bilhar ; no primeiro andar havia as áreas mais individuais, como dormitórios de cada família de músicos, quartos de hóspedes e áreas de apoio.

Plantas do Arquivo Público Municipal de São Paulo

Aulas e métodos

Ao ensinar uma maneira diferente de lidar com o piano, levando em consideração peculiaridades físicas, técnicas e estéticas, Chiaffarelli também orientava os frequentadores dos saraus e dos concertos para que compreendessem os programas executados. Ao explicar os detalhes do repertório com graça e arte, ele fazia com que a música erudita pudesse ser assimilada pelos paulistanos.

Toda primeira quinta-feira de cada mês, a audição ocorria no Salão Steinway, à rua São João, apresentações essas bastante concorridas. Nas outras quintas-feiras, as alunas se reuniam na Rua Padre João Manuel, onde havia um vasto salão com dois pianos.

Chiaffarelli também se dedicava a ensinar suas alunas a como se comportar diante do público ouvinte. A casa da rua Padre João Manuel recebia visitas de músicos internacionais e os hospedava, sendo um deles o pianista Arthur Rubinstein, que ao vir ao Brasil costumava permanecer lá.

Anualmente Chiaffarelli viajava para a Europa em busca de renovação no contato com a música italiana e alemã, adquirindo as novidades ou copiando manuscritos para suas aulas. Após algum tempo, resolveu associar-se a dois amigos e fundar a Casa Beethoven, com a finalidade de editar aqui as partituras de que precisasse. Insistia sempre na necessidade de se desenvolver uma cultura geral e indicava os livros para as moças se instruírem, afirmando que apenas o estudo do piano não possibilitava o entendimento das grandes concepções musicais. Considerava muito importante o respeito de cada menina para com os progressos de suas colegas, elogiando a ausência de inveja. Além de oferecer as aulas, editou obras com noções teóricas, como Methodo (dedicada aos pianistas, de fácil leitura) e Migalhas (dois fascículos sobre a pedagogia do piano e a literatura musical).

Também foi o idealizador e fundador, em 1881, da Corporação Musical Operária da Lapa, inicialmente chamada Lira da Lapa e bastante conhecida como Banda da Lapa, sendo a primeira banda operária criada em São Paulo. Naquela época as bandas faziam suas apresentações nos agradáveis coretos das praças dos bairros paulistanos, e hoje essa banda é considerada a mais antiga de São Paulo, representando a cultura operária e os imigrantes italianos na capital paulista.

A elasticidade das frases – também chamada de agógica, característica principal da Escola Chiaffarelli – visa à condução da obra, ao estudo da velocidade ou andamento com que cada peça deve ser executada. Um dos conceitos principais do seu método é o de que a mão deve estar condicionada ao espírito; a técnica é necessária para a boa interpretação, porém o dedilhar prodigioso deve se tornar um domínio do timbre, das cores sonoras, das combinações vibratórias, apresentando contrastes entre luz e sombra...enfim, deve ampliar os efeitos de sonoridade.

O tratamento dos baixos merece especial atenção, pois auxilia a produzir a atmosfera sonora, provocada pela vibração dos harmônicos; os baixos devem ser macios, aveludados, robustos, com ressonância prolongada, evitando as ressonâncias metálicas, os harmônicos estridentes.

Caráter brasileiro

Após a Proclamação da República, houve uma busca pela expressão musical própria do país. Desde sua vinda ao Brasil, Chiaffarelli buscou obras e autores nacionais que possuíam um caráter brasileiro, podendo-se mesmo dizer que foi um dos precursores do movimento nacionalista, bem como da Semana de Arte Moderna de 1922, pois esse movimento foi liderado por amigos e alunos que frequentavam sua casa, dentre os quais Antonietta Rudge, Guiomar Novaes, Menotti Del Picchia, Francisco Mignone, Mario de Andrade, Ernani Braga e Heitor Villa-Lobos.

A atuação de Chiaffarelli no meio musical deu incentivo a novos compositores brasileiros, como Henrique Oswald e Ernani Braga, favorecendo a aceitação destes autores pelo público de sua época. E também tinha apreço pela música popular brasileira: quando de uma visita ao Rio de Janeiro, Chiaffarelli retornou sem conseguir despedir-se de Ernesto Nazareth, mas lhe enviou uma cigarreira de prata com seu nome gravado, a qual, segundo o compositor, viria a ser uma de suas relíquias. Nazareth conta que Chiaffarelli escreveu várias cartas aconselhando-o a vir para São Paulo. Autor de mais de duzentas composições, Nazareth teve muitas delas tocadas por Guiomar Novaes e Antonieta Rudge Miller.

Próximo
Próximo

As muitas alunas