Quinto Cenni

(Ímola, Itália, 20 de março de 1845 – Carate Brianza, Itália, 13 de agosto de 1917)

Quinto foi um pintor, aquarelista, gravador, litógrafo e ilustrador italiano especializado em retratar militares e seus uniformes. Nasceu em Ímola, na época cidade do Estado Papal, sendo o quinto de dez filhos de uma família abastada. Com simpatias liberais, sua família de tradição católica trazia o fervor patriótico da era do Risorgimento (movimento na história italiana, entre 1815 e 1870, que buscou unificar o país, até então um agrupamento de pequenos Estados submetidos a potências estrangeiras) na Romanha (região histórica da Itália setentrional). Vários membros da família compartilhavam as tendências nacionalistas, principalmente o primo de Quinto, Guglielmo Cenni (1817-1885), que lutou como voluntário (de 1860 a 1866) ao lado de Giuseppe Garibaldi, durante o Risorgimento, e depois serviu no exército sabaudiano (Sabaudia é uma comuna italiana da região do Lácio). Esta vivência familiar de entusiasmo combatente e progressista influenciou muito Quinto Cenni, que, apesar de pacifista, tinha por justa a causa dos combates pela unificação, e dedicou-se inteiramente a obras artísticas com temas militares.

Em 1856, após a morte de seu pai, a família dispersou-se, e Quinto, junto com um irmão e uma irmã, mudou-se para Bolonha e recebeu um subsídio municipal de Ímola, como apoio a seus estudos iniciais na Academia de Belas Artes local. Nessa academia teve orientação dos pintores Napoleone Angiolini e Antonio Muzzi, que lhe ensinaram técnicas clássicas de desenho, pintura e representação de figuras, o que lhe proporcionou uma base sólida para seus trabalhos posteriores. Dedicou-se depois à xilografia, tendo aulas com Francesco Ratti, que ocupou a primeira cátedra oficial de xilogravura na Itália.

Fascínio pelos Uniformes

Em 1867, após a morte de sua mãe, foi para Milão continuar seus estudos na Academia de Brera; matriculou-se nos cursos de xilografia e litografia da academia, onde foi premiado em litografia em 1870. Com sua habilidade em gravuras detalhadas, foi natural sua transição para mídias reprodutivas impressas, que exigiam domínio técnico e artístico. Naqueles anos, a fotografia estava se desenvolvendo, porém eram necessários equipamentos volumosos e difíceis de manusear. Sendo assim, um ilustrador com a habilidade e experiência de Cenni teve muita abertura para trabalhar em revistas ilustradas que estavam se estabelecendo na Itália.

Logo se sentiu fascinado pelos uniformes, começando a reproduzi-los desde jovem, com técnica admirável. O principal objetivo da obra de Cenni era tornar o Exército Italiano conhecido do público e principalmente mostrar as atividades nos quartéis, tornando-as tão interessantes quanto as batalhas e manobras externas, assim criando um catálogo visual de elementos presentes na vida militar. Era muito próximo dos soldados, apesar de nunca ter vestido um uniforme, e frequentemente representava as operações diárias dentro dos quartéis, onde tinha livre acesso e era recebido com carinho. retratando nas suas obras a vida militar em tempos de paz. Colaborava, desta maneira, diretamente para a conscientização do novo estado-nação, no qual se desenvolvia uma consciência patriótica unitária e de identidade, difundida sobretudo pela escola e pelo exército, instituições primárias do Estado.

Desenhos para revistas

A partir de 1870 contribuiu para o periódico L`Emporio Pittoresco, sendo o primeiro ilustrador de temas histórico-militares, e posteriormente desenhou para diversas outras revistas, como La Cultura moderna, La Lettura, Epoca, La Rivista illustrata, Lo Spirito Folletto, Emporium, e principalmente L'Illustrazione italiana. Como parte desse trabalho, realizou pesquisas detalhadas sobre todos os aspectos dos uniformes e equipamentos dos exércitos italianos pré-unificação e sobre o Exército Italiano da época, entrando em contato com diversos estudiosos italianos e estrangeiros. Obras como a sua série sobre as Batalhas de Custoza (1848 e 1866, Primeira e Terceira Guerra de Independência Italiana), um de seus trabalhos mais significativos, lançado em 1878, apresenta pranchas detalhadas de fases táticas, cenas de combate e vistas panorâmicas, com imagens vívidas e historicamente fundamentais, que fortaleceram a memória coletiva das guerras de independência contra o Império Austríaco. Para a publicação deste álbum, que logo obteve reconhecimento internacional, recebeu a contribuição de mil liras do rei Umberto I. Apesar de nunca ter assistido pessoalmente a uma verdadeira batalha, soube reconstruir, com surpreendente realismo pictórico, cenas significativas de episódios de guerra e de combates corpo a corpo.

Em 1887, fundou e financiou L'Illustrazione militare italiana, publicação bimestral apresentando gravuras e desenhos, que circulou até 1897 e permanece um exemplo clássico de revista militar. Com atenção rigorosa à precisão factual e conteúdo ricamente ilustrado, a revista foi publicada em Milão por Antonio Vallardi e definiu Cenni como figura fundamental na documentação do patrimônio militar durante o final do século XIX. Esse trabalho deu-lhe a condecoração da Ordem Militar de Cristo, oferecida pelo governo português, e também uma encomenda do Ministério da Guerra italiano para produzir um álbum ilustrado sobre a campanha de 1859, que foi publicado pelo Gabinete Histórico do Corpo de Estado-Maior, sob o título Album della guerra del 1859. Neste ano aconteceu a batalha de Solferino, na Segunda Guerra da Independência Italiana, que visava acabar com o domínio austríaco na região da Lombardia, e deixou milhares de soldados mortos. O sofrimento dos feridos sem assistência médica foi presenciado pelo empresário suíço Jean-Henri Dunant: chocado, sentiu-se inspirado a criar uma organização internacional neutra de ajuda humanitária, que viria a ser o Comitê Internacional da Cruz Vermelha.

Ilustração de álbuns e livros

De 1878 a 1916 Cenni publicou mais de uma dúzia de álbuns apresentando forças especializadas do exército italiano. Em 1886 lançou I Bersaglieri, comemorando o quinquagésimo aniversário do corpo de infantaria ligeira e mostrando seus característicos chapéus de penas, rifles e posturas de marcha. Seguiu-se I Granatieri (1887), que ressaltou os uniformes de granadeiros da guarda de elite, gorros de pele de urso e funções cerimoniais; e I Carabinieri Reali (1894), mostrando as elaboradas túnicas azuis, plumas brancas e equipamentos de equitação da polícia militar. Quinto Cenni também contribuiu com a literatura italiana, criando ilustrações para romances históricos clássicos, por meio de técnicas de gravura para representar com vivacidade cenas narrativas, momentos dramáticos, expressões de personagens e atmosferas históricas, fornecendo imagens às descrições textuais de cenários italianos dos séculos XVII a XIX. Dentre os livros que ilustrou estão I promessi sposi, de Alessandro Manzoni; Ettore Fieramosca e Niccolò de' Lapi, ambos de Massimo D'Azeglio ; e L'assedio di Firenze, de Francesco Domenico Guerrazzi. No final do século, dedicou-se, com excelentes resultados, à ilustração de cartões-postais com os feitos e eventos gloriosos de corpos e unidades do exército italiano, iniciando assim a tradição, ainda hoje difundida, dos cartões-postais regimentais.

Casou-se com Eugenia Maurelli, originária da província de Massa Carrara, em 1873, e seus filhos Ítalo e Elda seguiram o caminho do pai, inclusive ajudando-o em alguns projetos, como no Album della guerra italo-turco e della conquista della Libia, que foi o primeiro a ser publicado em fascículos, entre 1912 e 1913, posteriormente reunido em um único volume.

Apesar de sua idade, já avançada para a época, durante a Primeira Guerra Mundial Cenni manteve interesse pelos desenvolvimentos militares de então, embora seu tema principal continuasse a ser os assuntos históricos. Refugiava- se com a família, desde o início do século XX até a véspera de sua morte, na Torretta, em Colmegna (aldeia do município de Luino), para fugir do insuportável calor do verão milanês e vivenciar a natureza. Faleceu em agosto de 1917, antes do término da guerra, em sua casa em Carate, na região de Brianza, enquanto compunha as páginas descritivas da série Ducado de Modena e Ducado de Parma para o Dr. Gustavo De Ridder, um de seus muitos clientes estrangeiros.

Carta Garibaldi

Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882), conhecido como “herói de dois mundos”, lutou na América do Sul, participando inclusive da Guerra dos Farrapos, antes de ser o grande general do Risorgimento – a unificação italiana.

Quinto Cenni e a Tradição Hermética, por Rosie Mehoudar

Quinto e Elda Cenni: transmissão de uma tradição espiritual

No começo de 2010 fui à Torretta com Roberto Cenni, meu companheiro desde 2001. Como o leitor deste site já deve saber, Torretta é o nome pelo qual se chama a casa italiana, à beira do Lago Maggiore, que abriga muitos anos de história da família Cenni e que chegou a ser um ponto de encontro de artistas e pensadores. Fomos com a Silvana Loi, prima do Roberto. Duas obras, das tantas antigas lá expostas, me chamaram muito a atenção. Uma delas era um quadro comprido de Quinto Cenni. Havia cavaleiros medievais em suas montarias, num traço delicado, bandeiras, insígnias, e um pequeno texto à direita, que se iniciava com algo como: “Na época dos cavaleiros templários, os hospitalários...”. Fizemos cópias à mão desse texto e em breve conseguiremos reencontrá-las.

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Códice Cenni