Francisco (Franco) Cenni

(Milão, 15 de novembro de 1909 – São Paulo, 26 de fevereiro de 1973)

Franco Cenni nasceu em Milão em uma família de pintores, onde se destacaram seu avô Quinto Cenni e seu pai Italo, famosos por retratarem os soldados italianos na época do Risorgimento, e seu tio Angelo Cantù, que viveu no Brasil e pintou o retrato da princesa Isabel. Franco Cenni estudou na Academia de Belas Artes e Liceu Artístico de Milão de 1927 a 1931, quando realizou o Curso de Decoração e Desenho. Na qualidade de desenhista e xilógrafo, contribuiu – em 1928 e 1929, ao lado de Bruno Munari, Reiner Adami e Giorgio Würmli –, para a realização de alguns trabalhos de concepção futurista propostos à goliardia milanesa (espírito estudantil de associações universitárias na Itália, ligadas a um estilo de vida alegre e boêmio). Ao mesmo tempo, participou da fundação do movimento artístico Il presente, formado por um grupo de jovens apaixonados pela vida moderna que eram contra “...os verdadeiros diletantes da necrofilia, que não veem o belo senão no passado”.

Veio a São Paulo no final de 1931, para se casar com sua prima Elsa Cantù (Zitú), que conhecera nas férias em Luino e com quem viria a ter os filhos Mário e Roberto. Em seus primeiros anos no Brasil, escreveu críticas sobre teatro e artes plásticas em jornais paulistanos. Em 1932, junto com Ettore Zennaro, fundou a Rivista Latina, primeiro periódico artístico-literário que se propunha ao desenvolvimento de um programa sério e concreto para o intercâmbio e a difusão da cultura ítalo-brasileira.

Foi um dos promotores da Família Artística Paulista, junto com Alfredo Volpi, Mário Zanini e Aldo Bonadei. Em maio de 1936, vários arquitetos, pintores, escultores e jornalistas tiveram a iniciativa de prestar uma homenagem a Franco Cenni devido ao seu trabalho desinteressado a favor do mundo artístico italiano no Brasil. Nesta ocasião estiveram presentes: Alfredo Volpi, Antelo Del Debbio, Galileo Emmendabile, Giancarlo Zorlini, Francisco Rebolo, Fulvio Pennacchi e Nicola Rollo, entre vários outros artistas.

Segundo os críticos, Cenni praticou como artista um modernismo moderado, como se nota através de seus desenhos componentes da Família; sobre seu trabalho, escreveram Sérgio Milliet e Mário de Andrade, que o considerava excelente desenhista e proponente de uma visão cinematográfica na pintura.

Pintor de cavalos e paisagista com ênfase nas cenas da vida rural do interior paulista, Franco Cenni realizou exposições individuais no Rio de Janeiro e em São Paulo e participou de várias mostras coletivas, tendo sido premiado no Salão Paulista de Belas Artes em 1943, 1945 e 1946. Alguns críticos de suas exposições o nominavam o pintor-poeta.

No cinema brasileiro, trabalhou como cenógrafo na Companhia Cinematográfica Maristela e na Vera Cruz e fez a direção de arte de vários filmes, entre eles O Destino em Apuros (1953), primeiro longa-metragem colorido brasileiro. Como diretor de produção da Corona Filmes, realizou Sob o Céu da Bahia (1956), que recebeu prêmio de fotografia no Festival de Cannes.

Cenografia, premiações, Auditório Itália

Participou de aproximadamente vinte filmes, todos realizados na década de 1950. Deu aulas de cenografia no cinema, entusiasmando seus alunos a seguirem a carreira cinematográfica. Alguns o chamavam il professore-pittore. Em janeiro de 1960 ganhou o concurso promovido pela Companhia Antarctica Paulista, o Prêmio Itália, para obras literárias sobre a presença do italiano na história e no desenvolvimento do Brasil. O concurso, com uma comissão julgadora da qual fazia parte Antonio Cândido, foi instituído quando da visita do então presidente italiano Giovanni Gronchi ao país, originando o livro Italianos no Brasil (Andiamo in Merica), publicado na época pela Editora Martins. A obra é considerada um estudo fundamental sobre a imigração, abordando desde viajantes pioneiros até o período pré-Segunda Guerra Mundial, com ênfase na influência italiana na cultura, artes e sociedade brasileira. Foi reeditado pela EDUSP, com prefácio de Alfredo Bosi, e reimpresso mais duas vezes.

Na década de 1960, com o cinema paulista em crise, Cenni participou de temporadas líricas no Teatro Municipal de São Paulo, como regisseur e
cenógrafo. Foi também redator-chefe do Fanfulla, jornal da coletividade italiana em São Paulo, e trabalhou com Edoardo Bizzarri – historiador literário que traduziu obras de Graciliano Ramos e Guimarães Rosa para o italiano – no Instituto Cultural Ítalo-Brasileiro, sendo responsável pela programação cultural do Instituto. Recebeu a Medaglia d’argento della Direzione Generale delle Relazioni Culturali del Ministero degli Affari Esteri (1962) e a condecoração de Cavaliere Ufficiale dell ‘Ordine al Merito della Repubblica Italiana’ (1963).

A partir de 1967 foi o diretor do Auditório Itália e da Galeria de Arte Itália – ligados ao Circollo Italiano, no Edifício Itália –, promovendo a vinda de músicos italianos e incentivando montagens teatrais de diretores de vanguarda da época. Nesse período, o Auditório Itália tinha o melhor piano de São Paulo e todos os pianistas queriam tocar nele. O nome de Cenni foi um dos cogitados para ser o Secretário Municipal de Cultura de São Paulo quando ainda se pretendia a criação desse cargo, mas, como Franco nunca se naturalizou brasileiro, isto não seria possível.

Franco Cenni faleceu exercendo a função de diretor do Auditório Itália, no dia 26 de fevereiro de 1973, em São Paulo, vítima de uma embolia pulmonar causada por arritmias, tendo vivido por mais de quarenta anos no Brasil.

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