Mário Agostinho Cenni, 03
Anna Maria e Mário ( década 1980 )
Texto enviado à Itália para comunicar às primas o falecimento de Mário Cenni Queridas Silvana e Manuela
A despedida do Mário foi comovente. Pessoas das mais diversas procedências foram à sua casa – antigas empregadas, diretores da ESAB, jovens deficientes físicos, vendedores da região da Lagoa Santa, cônsules de Belo Horizonte – enfim, Mário tinha muitos amigos em todas as atividades de que participou. Até mesmo os empregados da construção em frente ficaram observando respeitosamente o movimento incessante na casa de janelas vermelhas, a quantidade de carros que congestionou as ruas próximas, a bandeira da Noruega a meio-pau, as corbélias que não paravam de chegar e se avolumavam na calçada.
Na missa rezada na sala foi difícil conter a comoção, até o padre chorou. Anna Maria, porém, foi muito corajosa, conseguiu falar belas palavras e chegou sem tropeçar até o fim do que queria dizer; depois o padre Inácio – que criou o Partido dos Trabalhadores em Belo Horizonte – comentou algumas divergências entre as ideias dele e as do Mário, que no fim almejavam o mesmo. Mário estava logo na entrada, no meio da sala de visita, todo de branco, com o rosto sereno, segurando o pequeno crucifixo que pertencera a seu pai e recebendo a afeição das centenas de pessoas que o amavam. E como o amavam!
Difícil ver tanta gente junta sentindo tão intensamente a mesma emoção. A nossa dor contrastava com a alegria de termos tido o privilégio de conviver com uma pessoa tão querida. No cemitério-jardim, a cova que lhe destinaram foi pequena demais para a sua grandeza. Cáceres, o amigo mais fiel que alguém poderia desejar, disse naquele momento que cada homem possui um pouco de Deus em si, porém a cota que coube ao Mário foi bastante exagerada. E, no final da tarde, quando caminhávamos para o novo jazigo, as corujas vieram prestar uma última homenagem a um grande amigo dos animais. Vai ser difícil viver sem o Mário. Todos nós ficamos empobrecidos e a dignidade perdeu um dos seus maiores defensores.
Roberto Cenni
Franco e Mário (1940)