Luigi, 04
Wilhelmine ( de colete preto), Luigi ( sentado ao piano do lado de aluna) e Liddy (em pé, de branco)
“a mão deve estar condicionada ao espírito”
Ao ensinar uma maneira diferente de lidar com o piano, levando em consideração peculiaridades físicas, técnicas e estéticas, Chiaffarelli também orientava os frequentadores dos saraus e dos concertos para que compreendessem os programas executados. Ao explicar os detalhes do repertório com graça e arte, ele fazia com que a música erudita pudesse ser assimilada pelos paulistanos.
Toda primeira quinta-feira de cada mês, a audição ocorria no Salão Steinway, à rua São João, apresentações essas bastante concorridas. Nas outras quintas-feiras, as alunas se reuniam na Rua Padre João Manuel, onde havia um vasto salão com dois pianos.
Chiaffarelli também se dedicava a ensinar suas alunas a como se comportar diante do público ouvinte. A casa da rua Padre João Manuel recebia visitas de músicos internacionais e os hospedava, sendo um deles o pianista Arthur Rubinstein, que ao vir ao Brasil costumava permanecer lá.
Anualmente Chiaffarelli viajava para a Europa em busca de renovação no contato com a música italiana e alemã, adquirindo as novidades ou copiando manuscritos para suas aulas. Após algum tempo, resolveu associar-se a dois amigos e fundar a Casa Beethoven, com a finalidade de editar aqui as partituras de que precisasse. Insistia sempre na necessidade de se desenvolver uma cultura geral e indicava os livros para as moças se instruírem, afirmando que apenas o estudo do piano não possibilitava o entendimento das grandes concepções musicais. Considerava muito importante o respeito de cada menina para com os progressos de suas colegas, elogiando a ausência de inveja. Além de oferecer as aulas, editou obras com noções teóricas, como Methodo (dedicada aos pianistas, de fácil leitura) e Migalhas (dois fascículos sobre a pedagogia do piano e a literatura musical).
Também foi o idealizador e fundador, em 1881, da Corporação Musical Operária da Lapa, inicialmente chamada Lira da Lapa e bastante conhecida como Banda da Lapa, sendo a primeira banda operária criada em São Paulo. Naquela época as bandas faziam suas apresentações nos agradáveis coretos das praças dos bairros paulistanos, e hoje essa banda é considerada a mais antiga de São Paulo, representando a cultura operária e os imigrantes italianos na capital paulista.
A elasticidade das frases – também chamada de agógica, característica principal da Escola Chiaffarelli – visa à condução da obra, ao estudo da velocidade ou andamento com que cada peça deve ser executada. Um dos conceitos principais do seu método é o de que a mão deve estar condicionada ao espírito; a técnica é necessária para a boa interpretação, porém o dedilhar prodigioso deve se tornar um domínio do timbre, das cores sonoras, das combinações vibratórias, apresentando contrastes entre luz e sombra...enfim, deve ampliar os efeitos de sonoridade.
O tratamento dos baixos merece especial atenção, pois auxilia a produzir a atmosfera sonora, provocada pela vibração dos harmônicos; os baixos devem ser macios, aveludados, robustos, com ressonância prolongada, evitando as ressonâncias metálicas, os harmônicos estridentes.
Luigi Chiaffarelli é visto como um “pai fundador” do ensino pianístico sistemático e profissional no Brasil. Costuma-se atribuir à Escola Chiaffarelli a formação da primeira “geração de ouro” do piano brasileiro. Nas palavras de Mário de Andrade (1983-1945), “a importação natural desse grande professor produziu a floração magnífica” cit. Itau Cultural
Corporação Musical Operária da Lapa
A centenária Corporação Musical Operária da Lapa surgiu no ano de 1881, em paralelo ao processo de industrialização brasileira, quando a cidade de São Paulo se tornou o centro da produção industrial do país. E o bairro da Lapa era um dos vários locais industriais da cidade neste período. O pianista e maestro ítalo-brasileiro Luigi Chiaffarelli (1856-1923) foi o idealizador e fundador com diversas denominações como Lyra da Lapa, Banda XV de novembro e Banda dos Empregados da São Paulo Railway e a partir de 1914 passou a se chamar Corporação Musical Operária da Lapa. No início a banda era restrita apenas aos músicos homens e nos anos 1970 as mulheres começaram a integra a Corporação Musical Operária da Lapa. Formada atualmente por pouco mais 20 músicos, a Corporação Musical Operária da Lapa localiza-se na rua Joaquim Machado esquina com a passagem à Rua Roma, realiza ensaios semanais e apresentações pela cidade. Com sede própria, e tombada, a construção é bem simples e composta de sala de ensaio, com um curto tablado do lado direito, junto a uma escada que conduz ao mezanino (hoje desativado), além de um pequeno banheiro. As janelas dão para a rua (frente) e para a passagem do antigo córrego (lado). Tais características da história da formação da Corporação Musical Operária da Lapa mostra o quanto ela é importante a para a cultura paulistana, pois nos remete nostalgicamente ao tempo das apresentações musicais nos simpáticos coretos de praças de bairros, com ares interioranos que a São Paulo atual acabou se distanciando. Por isso a Corporação Musical Operária da Lapa merece nosso apreço e tamanha honraria da Câmara Municipal de São Paulo.
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