Lembranças de Mignone
Francisco Mignone e Roberto Cenni (1959)
por Roberto Cenni
Quando eu nasci, minha avó, Liddy Chiaffarelli, separara-se havia muitos anos de Agostinho Cantú – que inclusive já havia falecido – e estava casada com Francisco Mignone, portanto sempre o tive como meu avô. Chamava-o de Kuko-Peng: do “Kuko” não sei a procedência, mas o “Peng” vinha de soco, pois uma das mais fortes recordações que tenho da infância são as lutas de almofadas que nós dois fazíamos. Com o tempo caiu o “Peng”, mas o “Kuko” ficou por toda a vida. Ele me chamava de Nequinho, e mais tarde Robertinho.
Lembro-me bem do seu espírito brincalhão, que gostava de pregar peças nos outros, como cutucar o ombro da pessoa e depois disfarçar, às vezes assobiando. Uma de suas brincadeiras prediletas era um jogo de ilusão com os dedos que me deixava intrigado, pois os dispunha e movimentava de tal modo que simulava o ato de uma mão arrancar o polegar da outra.
No apartamento da Pompeu Loureiro, no Rio de Janeiro, onde eu estava sempre que podia, ouvíamos os discos dos quais eu gostava muitas e muitas vezes seguidas (ele tinha bastante paciência comigo), ficávamos observando o treinamento dos bombeiros com a escada magirus – que me fascinava –, lutávamos com as almofadas da sala, jogávamos bolinhas de miolo de pão num grande peixe roxo de porcelana, tentando acertá-las na sua boca aberta.
O que poderia me deixar mais feliz?
Imenso era meu prazer de passear com ele de mãos dadas pelas ruas de Copacabana; íamos a uma pracinha com parque infantil e na volta passávamos pela Confeitaria Colombo para comprar cisnes de creme.
Era costume irmos nas férias para Cambuquira, e lá ficávamos hospedados no hotel de um amigo do Kuko; lembro-me do café da manhã na sala toda branca com pão cheio de mel e o sol entrando pelas altas janelas, do parque das águas de gostos estranhos e do lago com barquinhos que o Kuko remava.
Minha mãe achava que tanto ele como minha avó faziam todas as minhas vontades e eu acabava mimado demais. Provavelmente ela tinha razão, muitas vezes eu exagerava na exigência dos meus desejos – era comum eu ficar chorando desesperadamente quando eles saíam sem me levar –, mas isso também acontecia porque eu os adorava.
A lembrança que guardo do Rio é a de uma cidade realmente maravilhosa, com o sol brilhando nas grandes pedras e no mar bem azul, os ônibus e os lotações multicores voando pelas ruas. Enfim, tudo no Rio era gostoso e a cidade parecia sempre cheia de luz e de alegria, certamente pela presença do Kuko e da minha avó.
Quando eu tinha oito anos aconteceu a morte de Liddy em acidente aéreo, o que para mim acabou representando uma perda bem maior do que a sua falta, já imensa. Fiquei muito tempo – creio que mais de 10 anos – afastado do Rio de Janeiro, do avião e do Kuko, por imposição dos problemas psicológicos de minha mãe, que procurava evitar qualquer contato com o passado que lhe fosse doloroso.
Neste período, vi-o apenas uma vez na casa de meu irmão, em Belo Horizonte, e em outra oportunidade na casa do seu irmão Domingos, em São Paulo, sem poder entender direito o que impedia nosso encontro. Com a morte de meu pai e a mudança da minha mãe para Belo Horizonte, voltei a ir ao Rio, agora para acompanhar as audições das obras de Mignone e as homenagens que lhe eram prestadas, tendo sido várias vezes convidado por ele e por sua esposa Maria Josephina para ficar no apartamento da Pompeu Loureiro. Após o Teatro Municipal apresentar suas obras, sempre havia festa para homenageá-lo em algum apartamento de alguém bem rico.
Em 1985 soube que Mignone estava com câncer no pulmão e quase que com certeza não alcançaria os 90 anos. Fui ao Rio para vê-lo e esforcei-me para não ser tomado pelo que estava sentindo, o que acabaria demonstrando a minha imensa tristeza com seu estado de saúde. Nesta data ele quis me devolver um dente de leite meu que permaneceu guardado num pequeno vidro com formol e uma fotografia descorada e preciosa de Cambuquira, na qual eu estava cercado por ibiscos. Esta foi a última vez que o vi.
Para mim, Mignone sempre foi e sempre será o Kuko, um homem que – independente de sua habilidade com a música – possuía acesso direto ao meu sentir e foi o protagonista de alguns dos momentos em que vivi grande plenitude. Muitas vezes me perguntei se ele realmente sabia da importância que teve na minha vida.
Roberto em Cambuquira (1960)
Mignone, Liddy, Elsa, uma amiga e Roberto (1959)